3.3.08

Lembro bem daquela manhã. Um sabadozinho em que o sol, portando luz incomunmente bela, me acordava cedo. Lia Shakespeare e trazia no peito paixões. Senti ali um dia cujo fim não importava e sim somente a beleza do começo.Chorei então de alegria cega, pois ali, ao despertar, ainda não sabia. E foi quando a voz informática de Bianca deu-me a boa-nova: Cecília!Não entendo o que senti, mas sinto que meu coração entendu liberdades e alegrias. Na rua, chorando correntezas e rios inteiros de felicidade, tive um girassol na mão e lembranças:O choro do papai sem a mamãe.O choro do papai não mais apenas coma mamãe.O primeiro presentinho, dado meio sem querer.Hoje, o sol ainda gira, ou giro eu, não importando tanto ao céu que seja belo, sublime e absurdo, pois agora, toda a lindeza irreal que vi nos ares concentra-se em almazinha e pequenos-grandes-olhos: Cecília.

3.12.07

Todas as piadas são possíveis na trágedia de cada dia. Eu por exemplo me dedico ao exercício vão da poesia. Poesia-política? Revolução pela palavra ou palavra pela Revolução?? A dúvida e a tentação de Paulo, o poeta. Apóstolo, arauto da fé que as vezes é fraca diante do diabo cujas medalhas brilham no Eldorado cuspindo dollars ácidos e bélicos calles a dentro. Fraco o homem e não o Deus. Fé é mais básico que base popular. A base da fé. organiza-se quem acredita. Em político? Vieira-Lewgoy não salvaria nem Niterói! Organiza-se quem luta hoje e agora contra o demônio da mudez: a altivez do indivíduo american way of life, orgulhoso de achar que é um, mas que multiplica-se vitrines shoppings afora. Organiza-se quem tem orgãos: pulmões para berrar em stereo sound nas tão altas e decibeis cifras sonoras que o controle da tv que tudo vê torna-se mudo. Palavra rompante só na consciência, mas junta no abraço fraterno, e em idéias em comum. Organiza-se quem além dos ouvidos tem nos olhos o temor, o temor pela cruz falsa-e-porfírica onde o filho por tempos imemoriais não esteve. Olhos que sabem olhar e dizer que a morte é o atestado da vida: morrer pode ser o ter vivido com dignidade, sem aceitar a injustiça de um-algum-alguém ter mais e achar-se melhor. Morrer pode sim significar: ter vivido!Todas as piadas são possíveis na tragédia de cada dia. Eu, por exemplo, faço elegias pro vento. Transformo amor-abraço-curto-pra-não-sufocar em espera messiânica. Sou egoísta na mesquinharia do peito explodindo porque candidato a mestrando não da-se ao luxo de sair de casa nem pra comprar pão e ver que um líder,político, sindical, ou de bairro representa com possibilidades o povo. Mas não é o povo. O povo anda com fome- quando aguenta andar. E tem pressa: ao invés de orgãos, tem pernas pro tempo voar e a comida chegar pela minha esmola. Mas eu, quase-doutor, não saio de casa. Escrevo coisas secas no computador. Dor.Todas as piadas são possíveis na tragédia de cada dia. E de noite, ainda por cima, me acho com direitos de não conseguir dormir...

2.11.07

Aletria e Hermeneutica

Tristezas e partes
do peito partidas
à parte
quero a alegria;
aletria hermeneutica,
fechada de tão aberta
carta em braile
com certezas cegas
que não faz cosquinha
nos doutores.

Tristezas e partesdo peito partidasà parte,
quero a alegria;
o nascente da manhã
que clareia minha
elegia
amor de amigo e irmão
que tira da sombra
o Platão franciscano
que traz aos pombos
a boa- nova do dia:sorria!
Achamos que rimos
porque esquecemos de
lembrar que no riso
está a graça, divina
que mistura céu
e mundo.

Mas então sorrindo,
sorrio meio sorriso?
Sorriso e meio.

30.10.07

Pensar-Sentir

Pensar; palavra contorcida. O esforço em captar algo que as estrelas teimam em esconder e o ar apenas sugere. O pensar para captar, seguido do sentimento, assim pensado feito consciência; verbo re-torcido. São seis horas na cidade pequena. Cidade que é-mas-não-é. Horas que somadas levam ao céu: Angelus. Após a pausa sacramental, que vai além do ritual romano, chegando na missa dos quilombos, palavra negra, convertida, porém e por-isso rica em diversidades de estórias e tragédias, caminho pela rua estreita. Vou na contra-mão do caminho que sempre faço, talvez para ter mesmo dois pensares; o da palavra contorcida e o pós momento disso, a retorção: distorção. Pois distorçer, não se iluda, é sempre um certo contar. Cada um conta de seu canto. Um conto. É isso que trago; palavra des-torcida. Primeiro feita difícil pra depois ter a face exposta. Ou seria primeiro a enganação do óbvio, para depois a coisa ser em verdade mais de uma? Contorço depois des-torço; com calma melhor então melhor explico...

Língua. Minha língua não cabe em minha boca. Poderia falar sobre a dinâmica de uma grande cidade. Seus processos, suas loucuras. Edgard Allan Poe dos dias de agora, estéril em meio à multidão. Mas...não. Não quero aprender a mecânica que faz a roda girar, nem a soltura de parafusos; quero o que vem antes do homem-teórico que fala sobre tudo que vem antes no tempo, mas depois dele saber disso. Falar COM é o que se há por tentar. Tocar a campainha do pensar e do agir. Quem fala: é o homem, ou a linguagem? Minha língua; já não cabe em minha boca. Pois a fala é a escuta de quem fala COM. Nestas linhas, falo com o que antecede o sobre; falo tendo comigo a essência do agir. Hoje, o essencial tocou meus atos através de um olhar: Eu vi, o menino. E tenho certeza. O que são certezas senão ser, essencialmente com acerto? Não tenho dúvidas; o menino está logo ali.

Quase não o vejo. Quase passo por ele com a indiferença de quem gravita entre ter dó ou ignorar; melhor não pensar? O menino; estava ali, fato consumado para mim. Por um instante quase não enxergo. Ou a partir daquele instante não enxergo? O fato consumou-se consumindo-me. No antes-momento daquilo, o dito cujo garoto murmurou algo, talvez tão alto que foi inaudível. O senhor apressado buzinando e nem a dona-de-casa, do alto do cosmos de seu lar sabem, mas estão cheias do tudo as ausências. Pode uma vozinha fio de som cegar alguém? Heim? Quer dizer então que a voz mudou os olhos...O menino. Coisa tão absurda que repito esta novidade até agora. Pediu moedas para comprar o que faltava: já tinha o pão, faltava um litro de leite. Teria naquele instante fome? Desrespeito o garoto ao parar para questionar isso junto a quem lê estas linhas,enquanto ele pode estar faminto? Quase um parágrafo de perguntas. Mas questões não tem respostas. Tem é a pergunta que se faz e refaz.

Pergunta é um tipo de caminho entre noites que se faz. Por que? Não me pergunte. Só sei seguir; rastrear o pensamento até que derrape e sinta. Fome? A fome é o que não passa. O que termina são certas vontades de comer. O menino me cegou de fome. De vida. De pensar-sentir. E tudo por um pedido que quase não ouvi. Fome violenta que irrompe corpo adentro. Não o espírito da barriga. Mas a vontade de comer vida. Tenho paixões? Arroubos de cólera? A pergunta se pergunta sozinha? Fome de amor; amor é mesmo no a dois de cada um. Porque o amor indivíduo em si que sai por aí pedindo para ser amor, não é. Amor que quer amar? Se não é o amar ao outro, pode ser amar só, a si? No raso das coisas, no esperar o sinal verde para fazer a travessia da avenida, sim. Mas o chegar ao outro lado, o saber onde vai é via de mão-dupla. Amor que vai e volta ainda ao ir: gostar é uma forma de morrer depois: no pôr-do-sol dos dias. Ser um a mais para o outro; ter dois tempos que movem-se dentro de si. Isso aprendi com o menino. Amor. Amores; amigo, irmão, mulher esperada. fome de vida e de amor. Aprendi que sua fome ele nem sabe de onde veio, mas estava ali, na justa hora de me cegar e fazer pensar um sentimento. Senti-me vazio. Ôco das coisas. Porque o menino sintetiza a miséria humana. Turbilhão estéril que gira em bolsos capitalistas quaisquer que sejam por aí, sem perder a inocência de quem pede porque acredita que vai receber. Esperar de alguém num é lá um amar- a possibilidade e os homens?

Pensar, palavra contorcida após torcer. Pão e leite que conheço muito bem desde os copos em menino justo agora anoiteceram meu dia. Moeda alguma pude ali naquele instante escorregadio oferecer. O menino, infelizmente, só pensei nele foi depois.

17.10.07

Peguei a sentir. Logo agora que queria apenas a calma matinal com cheiro de pão saindo do forno, peguei a sentir. Turbilhão louco, roleta que gira tão rápido e nem dá pra ver bem o que escolher, em que apostar, onde vai parar. Coisas advindas. Adivinho sem pensar muito aquilo que sinto. Sentir não é escolher. Sentir é pegar. E peguei a sentir. O mergulho na angústia que margeia a alegria louca e (i)rreal, o olhar para cada coisa com olhos transplantados. Tenho novos olhos, ou novo coração?Novos dias.

14.10.07

Alvorada


Um acerto de contas com o relógio. Foi isso que tive. Mas se ele não girou, tenho. Antes de ter, tinha já tudo para ser mangueirense: a proximidade espacial, pela escola quase ao lado, sem contar a rubronegriçe quase similar. Os quases e o ser. Lá estou eu. Ou melhor, aqui estou: pois se meu tempo é quando, se os ponteiros pulsam no peito fazendo o de-fora ser ôco, lá ainda estou: aqui. Estação Primeira de Mangueira; parada obrigatória para sentir...

Impressiona a palavra reificada pelo oral. Sambas em disputas como crinaças pedindo pra nascer. O poder da fala; podem as músicas mesmo ainda em dúvida se são, serão ou tentarão novamente, chegar em minutos na boca das gentes? Poucos lêem, muitos ouvem, todos cantam. Mas a disputa tem limite-ilimitado. Há sempre algoque dá sentido à coisa: ritual coletivo, espécie de missa do morro. O tema é o frevo, mas o que dá unidade, fazendo com que todos disputem a mesma coisa é como um credo com três partes:- nariz, óculos e...Cartola: vida que criou arte. " Cartola não existiu: foi um sonho que a gente teve", disse Nelson Sargento. Surto coletivo? catarse?

A mímesis dos gregos e o exemplo do que sere ou não ser. O samba alucinado, papel prateado que cai do alto e te atinge em cheio se desistir de erguer as mãos ao nada musical, volume máximo da surdez; foi ele, papel, que me fez sentir-pensar: No prelúdio de um dia picado com flor e lodo, alvorada de gente na rua meio-bamba, sorri e canta o velho Angenor. O samba e a vida. Quem imita quem? Se Cartola não existiu, discussão também não há: lá, para quem não sente, ou aqui, para mim, Cartola ainda é. Eis a Questão...

8.10.07

" Contra-Bando"

América de Colombo:
calombo dourado
sulco encravado
nas deias del rei.
A prata de Potosí
brilha mas não sabe
que ouvi e senti;

Rio, de janeiro,
correnteza de
pau-e-pedra,
centro lateral,
litoral, do meio
de um mundo:
Bolívar nas Gerais?

América de prata;
calombo de Colombo
sangue
sonho
trono
contrabando de idéias
contra o bando
que não sente.

7.10.07

Sei que nada será como antes amanhã; pq o pé na estrada faz ver o caminho e não a chegada; começo de um ontem por vir. Sei que nada será como antes amanhã porque depois de amanhã vou morrer. Mas viver não mata; o que mata são mortes mal-morridas..

1.10.07

Malandragem


Sou malandro,
de pés ligeiros,
sou bamba.
Mas na vida,
poética
dolorida
onde a gente samba,
sei que dos trabalhos do amor
não se corre,
porque viver é muito sério;
um belo dia se morre...
A flor e o lodo

Do lodo surge a flor
Da tristeza o amor;
Elegia transmutada
Em alvorada.

Dizem que no morro
O samba é um lamento.
Escuto então atento
A voz que vem lá de cima
Dizer;

A fineza do poeta
Faz do alto e do asfalto
Um mesmo amanhecer.

28.9.07

Bonecas Russas ( forma e conteúdo)


Bonecas
Russas;
uma menor
dentro de outra maior:
como saber quem será a última?

20.9.07

Pão-de-queijo, Roland Barthes, cachaça-de-alambique e Walter Benjamin.Dizem que conselho, se fosse bom vendiam. Talvez estes não entendam, não percebam que na etapa atual de desenvolvimento- arredondando muito- do capitalismo cá ocidental, estão em fragmentos tempo e experiência. Daí então o individualismo que faz um bem-intencionado conselho ser algo tão enxerido, externo á experiência alheia. Toda vez que folheio Grande Sertão: Veredas, sinto que o conselho, não mais possível para Benjamin pela individualidade das experiências, fruto dum tempo partido, desenvolve-se enquanto conselho não externo à experiência, mas sim para dentro. Isso possivelmente porque a linguagem de Guimarães Rosa não tem como ponto limítrofe problemas, coisas circunstanciais que são temporais e oxidantes. Como num temporal, a água da chuva passa, seca; a do rio, essa continua.
Rosa toca em Questões, maiúsculas sim, o que faz com que a linguagem seja Poética: a essência do agir contemplada; comtempl-ação. Então, ele, o narrador, o que age na narrativa, me transmite no romance rosiano experiências, processo similar ao conselho, por dentro; pela linguagem. Para Barthes, não se fala fora da linguagem. Entretanto, existe uma trapaça salutar: a Literatura, que consiste num " externo à linguagem" onde ocorre o que o intelectual francês chama de " Grau Zero da escrita": São todos os recursos, possibilidades da escrita.Turbilhão, força motriz, água da palavra; as vezes cristalina, as vezes turva, dependendo de quem beba. Ou seja, a Literatura é originária " fora da linguagem", mas isto é uma trapaça. Por que? Simples. A origem "fora" é ápenas para jogar-nos para "dentro"...Então, de certa maneira, pode-se dizer que pela linguagem rosiana são transmitidas experiências. A obra de arte, mesmo sem sua unicidade, sua função de culto, mesmo sem aura, ainda é capaz de transmitir. Basta tocar sua essência. Basta permitir que tal essencia lhe tome o pensar e o sentir, com dúvida e sabor; o beijo do dia e o tapa da noite: Quando na linguagem de uma obra de arte- existem livros que são- encontra-se as Questões, as que nos batem e beijam; Homem e Travessia.
L.L
19-09-07

19.9.07

Time operário


A técnica substitui a aura;
Sai tradição,
Entra consumação.
A técnica comanda o treino tático:
Tácitos jogadores, achando que vão
Marcar Zidane.
Mas a liberdade de jogar
Não vale pra ganhar.
A técnica substitui a arte;
Faz parte, diz o galã
Global
Que tem pilha duracel,
Fruto de incursão anal.
A técnica altera até
O esquema do carnaval
O jurado jura que não
Mas dá zero pra quem
Diz que foi só
Suor e emoção.
A técnica substitui
A técnica;
Morre o homem,
-Corta, cena 2;
E continuam
A produção....
19-09-07

A paixão pela palavra. Do verbo, nasceu e verteu o homem. pensar é um entender que sente. Mais palavras e mais pensamentos? Atitude e sentimento...latino, brasileiro, pensando pra dentro: mais palavra e mais sentimento: pensamento. Nas minas, de Potosí e das Gerais, estão o amigo, fortúito, atento: sentimento futuro dum passado presente: querente, do beijo do dia e do tapa da noite. Com o açoite de não mais palavras, fica, apenas, o velho-novo-latino sentimento.

18.9.07

Minas Gerais

Minas:
Confim mais profundoda palavra.
Presença,p'ra dentro.
Do Brasil?

Confim:
Confuso;
É latino?
Africano?Ou quem sabeUrano...

Pode ser que lá,
um dia,
eu fique encantado.
E no último instante,
o-de- a terra,
na pá
no peito,
nele, assim,
meu olhar
ainda-já quase verde
possa arar o
tempo-espaço
e fazer a travessia;

Ponta-de-areia
Caminho natural
da vida pr'a morte
e da morte pr'a vida.

Minas;
Coração-do-mundo
Cais;
tudo que
sempre quis:
Uma ponte para cada palavra;
Minas
Gerais.
Conversa com Luizinho


De um dia simples
Tirei uma lição;
No presente está
O futuro da nação.

De manhã, fui á igreja;
Sou americano e mineiro,
O dia inteiro.

Depois, o show no parque.
Sou americano e mineiro,
O dia inteiro.

E foi quando ela chegou;
Sorriso reluzindo dó-ré-mi-fá
Que assombra mais que um raio
De sol,
Ou mesmo o sol inteiro.
Sou americano e mineiro,
O dia inteiro.

Acontece que nasci em Niterói.
Sou brasileiro...

17.9.07

17-10-07



Portuguesa
com ares de
Norueguesa:
beleza traçada
com destreza.
Transformaste o
sempre igual
da aula e da rima
na alegria-triste
que com nada combina
do apenas olhar.

13.9.07

Homenagem dum certo " filósofo"...rsrsr

Lusitano. O nome denuncia; exilado em mundos que não mais anunciam a volta triunfante do rei cristão. Mas és forte, e organiza um exército vão, com pacotes de poesias debaixo do braço. Leonardo, nessas terras de gingas indecentes, aponta pra Minas como se diz "avante". E corre medroso, quixote às avessas, abrindo caminhos pra gente passar.
PROMOÇÃO:
Na compra de dois pacotes de medo,
juntando mais três nãos,
ganhe ou jogue fora um coração.
Amor é mesmo no a dois de cada um. Porque o amor indivíduo em si, que sai por aí pedindo para ser amor, não é. Amor que quer ser amor? Se não é então o amar ao outro, pode ser amar só, a si? No raso das coisas, no esperar o sinal verde para fazer a travessia da avenida, sim. Mas o chegar ao outro lado, o saber onde vai é via de mão dupla. Amor que vai e volta ainda ao ir: gostar é uma forma de morrer depois: no por-do-sol dos dias. Viver é belo e perigoso. Ser um a mais para o outro? Ter dois tempos que movem-se dentro de si.