18.9.10

Belíssimo o Amadeus, de Milus Forman!

O filme narra como a obra opera em Wolfgang Amadeus Mozart e não como o autor explica a arte, ou como se costuma fazer, como a sociedade explica a arte....
Na sociologia de Norbert Elias Mozart depende materialmente das cortes austríacas e isso tem o peso de destruí-lo enquanto indivíduo. Sua música seria então produto de seu tempo: a sociedade cortesã do século XVIII e todo seu constrole.

Ocorre que a música em específico e arte, em geral, não são tributárias de tempos contados em espaços já estabelecidos. Música é o que instaura tempo e espaço, suspendendo-os sonoramente! Quantas notas cabem no tempo? Infinitas! Quantos tempos cabem nas notas? Todos possíveis imagináveis e ainda por serem criados...

É rompendo essa dicotomia que Forman sinfoniza uma bela obra, onde o drama de Mozart mais do que ser refém da sociedade de cortes é exatamente ele se colocar de forma anacrônica, atemporal, diante da relação com a Igreja, com o mecenato, com o Imperador...Mozart vivia em outra instância: como na cena onde seu pai e sua esposa discutem e ele simplesmente se fecha no quarto. Surge, miraculosamente aos nossos ouvidos a música que lhe sobrevém. É este seu tempo espaço: outra instãncia, a poética...

O jeito que vemos a composição das peças não tem centro algum no homem, no sujeito, e sim na música...Não há texto, fala...O que impera é a música: partituras perfeitas, sem cópia e escritas de uma vez só, sem correção. Pode o homem sozinho isso tudo? Gênio, menos do que quem dá é aquele que muito recebe...

É o inverso da cegueira de Salieri, que na película quer o dom de Mozart pra si e ao força-lo a compor rapidamente o Requiém, acaba por matá-lo: espécie subjetivada de Édipo que fura...os ouvidos!

Por isso, recomendo muito " Amadeus"!!

17.9.10

Gira-mundo


I-

De uma roda, de algo que gira, o centro é sempre estático, embora em movimento...Penso em carros de boi, rodando mundo-à-fora, com a roda que gira o carro e o carro que roda o mundo. Mas como pode algo igual estar, no tempo, diferente? Contradição? Paradoxos. É deles que se exprime o que ainda não foi dito. E o que eu ainda nunca disse é que acontece em mim sempre algo igual, mas que retorna diferente. Sempre outro mesmo: Sei como sei pelos olhos dela. E não é isso o amor?

II-

Talvez. Vivaldo estava cansado de ser um só. Queria era ser só um. Todos os dias, via nos olhos da mulher o reflexo de si; nos dois olhos. Uma dobra? - Se me vejo dois e sou um só, não posso estar inteiro e sim partido.É ela. Toda vez que me vejo naquela luminescência, reparto-me em constelações de eus...Quantos eus existem? existe um?

III-

Belo dia, Vivaldo deixou da coisa de partir e ficou: todo. A exultação de ser ele. De ele todo ser bonito. Adjetivou-se demais. Agora não reconheciam sua beleza. Era sujeito indeterminado. Pela primeira vez achou que amava mesmo aquela e chamou-lhe até de amor. O próprio amor?! E amor é coisa chegável que se tenha só para si?

IV-

A estória pode parecer curta. Mas não são os atos que nos fazem. Somos orquestradamente feitos da matéria invisível que compõe o molde de nossos atos. E depois desmolda. Atuar é sempre começar algo. Mas Vivaldo queria viver e pensava que isso fosse começar alguma coisa, e que talvez essa coisa fosse o amor; todo aquele seu. Inteiro ou metade? Na perda de dúvidas, amou. Amou tanto, que por amar até o amor, odiou: queria nos olhos dela, amar como a si mesmo.Queria que o espelho se voltasse contra ele sem quebrar. Odiou aqueles olhos...Agora de tempestade!

V-

O amor no meio e o ódio rodando. Mas o igual sempre volta diferente. Daquele ódio pela diferença, quis amar o que via nela de igual, mas não pode mais: já também se odiava. E foi o ódio que sentiu de tudo que se repetia nas veias e nos olhos dela que recobrou, no fim, o meio da roda: amou o que retornava novo, em frescores. Cores re-novadas. Vivaldo ali dançou, cantou, fez de qualquer espaço seu lugar; pediu até ao sol que botasse seu chapéu de festa e mais o alumiasse...Até a manhã seguinte. Mal sabia que era o começo do fim. Conto curto porque a vida corta forte: Vivaldo acabou foi começando...Pois do ódio renasceu um amor,que sentido sem razão, foi assim...musicando seu fim.

19.5.10

Encanta-dor

Na noite daquele dia que quase não há tudo corria bem. Era minha noite de apenas coordenar o pré-vestibular comunitário. Então, adjutorava o professor de Português. Aula não dava. E nem poderia. Só não sabia ainda era o motivo ou o des-motivo disso.

A energia dos alunos é gostosa: sentir um futuro grávido de sonhos abre o presente.

Mas nem sempre é assim. Muitos, a maioria, quer é saber o que vai sr quando crescer, e não quem. Um chamado João Heraclitino desenha diplomas na carteira escolar durante a aula de cálculo. Realmente, é este um sonho bem funcional. Mas existe aí uma força de rio que corre silencioso subterraneamente; é um sonho. E sonho não tem função. Não somos nós que sonhamos: somos é sonhados. Trata-se de um existir real, solto das formas? Pode? Sonhar é prender um peixe no vento. E soltar um menino em seus diplomas...O sonho sonha o menino.Quem se prende no diploma sai de entrar em si.

O fato- que é feito de vento- é que na noite desse dia tudo corria bem. Mas já desde a tardinha algo deformava oculto. Alguns alunos, no penoso dever de dar conta de toda a matéria, juntaram-se num grupo: monitorias. João Heraclitino ralhava consigo: - meu diploma. Minha carreira para fazer a vida, pensava com o corpo inteiro. Apenas os olhos se desviavam disso, tentando copiar o por-fazer.

E foi quando alguém-que-não-sei-quem chegou na porta do curso para doar livros. Enormidade de folhas, capas-duras e colorido algum. Mas os alunos esqueceram de perguntar qual o conteúdo a ser doado e o material se desviou. Esquivou-se já desimportante, pois o dono decidiu depositar tudo numa rua escura dos arrabaldes.

Já era o horário do intervalo. Juntos foram todos à padaria, como era costumeiro. Comuns, comum-unitários: comunitários das coisas, iam desfiando acelerada prosa quando aconteceu. Meus alunos, agora algum ganharia os braços e pernas do mundo e nunca mais seria o meu, encontraram pilhas de livros lançados numa calçada escura, no ermo do coração de São Francisco, bairro de nome humildezinho; pois foi Francisco homem alheio a coisas com formato pré-pronto e que ao invés de juntar apartam. Um por um, foram se felicitando, descobrindo livros de cálculo e de administração. Porém algo naquelas pilhas desabou e João Heraclitino desconheceu-se.

Empolgados, os alunos levaram para o curso dezenas de livros. Exauriram braços, pernas, lombares...Quando tudo já era achado e desimportante e sobrava quase nada, quase o nada, foi que João Heráclito chegou lá. Fuxicou os restantes e encontrou Pessoa. Quando tudo já era perdido e desimportante, João Heráclito achou Drummond e Rosa. Naquela pilha de xepas, eles só podiam ser inúteis. Ao retornar, João me disse decepcionado: -Eles não tem utilidade..De súbito, devolvi: - Mas João; é este o seu encanto. DEpois dali não tive mais o que ensinar. Se o mundo fosse feito apenas de encantados, a terra desabava no céu.
Fosse ele feito apenas de encantadores, seria o céu quem desbava na terra. Mas se o céu desabasse na terra, a terra também precisaria desabar no céu: Encantador ou encantado? Agora João é encanta-dor. Transpassar o que sangra, mas também é encantado: pois foi o sonho que sonhou o peixe solto no vento, descobrindo o mar. Água da palavra.

Acho que foi assim que aprendi a ensinar o que é inútil.

15.4.10

Gostar é nem lembrar do futuro:
pois toda saudade
é uma certa-errada velhice.
Poema do amigo de caminhada Lori Paz:


Hoje eu me canso de buscar
Dentro da noite
O sono que já me aperta as pálpebras
Sem me dar o merecido descanso

Um pena pros que já não sonham
È ver a noite igual ao dia
E não ver no dia
O que na noite se mostra

Perdido, insone – noturno labirinto;
Já não sente o peso da carne
Maldiz tudo que não faz silêncio.
E nada quer dizer

Uma pena, pros que não sonham
É uma triste alvorada sem paz
Pensar em não dizer nada
Muito menos o que quer ser ouvido

Para os que não sonham,
O dia é lento e sem tempo;
A noite é alva
A boca é seca e o peito duro

Muito azar e muita dor
Aos que não sonham.

22.3.10

A Solidão da Cruz (Por Leonardo Lusitano, amigo e poeta)

Certas vezes a dor dilacera ao ponto de o coração comprimir-se tanto que, diminuto, sobra muito corpo, sozinho, vago, distante da reunião de peito e olhar para fora. A dor comprime para dentro.
Mas é nesse movimento, aparentemente negativo, que a lágrima converte-se em sorriso.
A dor não comporta ruídos. Cabe apenas....silêncio. Não aquele que emudece; o silêncio como fala da escuta. Falar para dentro, como sabiamente fazem os mineiros que tem na boca o gosto pedregoso de sua terra.
Silenciosamente, Jesus- histórico e poético- escutou a dor da cruz. A cruz de quatro pontas, de quatro cantos que aponta para tudo: a realidade não possui beiradas, não há como fugir, escapar: quando tampamos os ouvidos afim de emudecer não é exatamente as batidas de nosso coração a única coisa possível de se ouvir?
Nada silencia mais a dor, o silêncio que cria trovões, do que a solidão da cruz. Nela, o filho, mesmo em seus momentos derradeiros, fez-se escuta:
Pai, porque me deixaste tão só?
Para os espíritos objetivistas, este pode ser um sinal de fraqueza, um pedido de ajuda. Mas pensando o não-pensado, não estaria o filho pedindo exatamente a solidão e o silêncio da cruz? Pois sua pergunta ainda ecoa sem resposta há mais de dois mil anos: Jesus não queria resposta. Fez-se, em sua dimensão humana, pergunta, se abriu á questão, onde importa perguntar, porque respostas fazem ruído. No silêncio da cruz, Jesus despiu-se da resposta. Perguntou e fez-se paradoxo. Múltiplo, desarticulado: homem e deus.
É perguntando, sem esperar respostas, que deixamos de ser apenas humanos, caídos na fraqueza da dúvida. Duvida quem espera resposta. Respostas fazem festa para encobrir silêncios.. E o silêncio da cruz, a solidão que questiona enquanto dor, me fez perguntar:
Quem sou eu se não for professor?
Quem sou eu se não for poeta?
Quem sou eu se não for triste?
Quem sou eu se não for sozinho?
Quem sou eu sem modelos de amor?
Quem sou eu sem o exacerbo da fala?
Quem sou eu...sem a subjetividade centrada no eu?
Descascando as tintas com que me pintaram, saio da resposta e volto para a questão: a loucura da cruz! É na solidão que experienciamos aprendizagens; todo homem é solidão e isso nos é comum. Sem resposta, resta apenas....a cruz. Assumindo-a, cessa o barulho de todas nossas máscaras e a última frase do Cristo talvez possa ser a nossa próxima. Não a final, mas a do meio:
Pai, porque me deixaste tão só?

10.3.10

Toda vez que amo, me sinto artista.
Toda vez que estou com meus amigos, sorrio artista.
Toda vez que vovó me fazia cafuné, eu era artista.

Quem me ensinou foi Chaplin: nos seis meses de greve da alfabetização, aprendi a ler na sua biografia, também repleta de figuras, magnéticas. Hoje agradeço pela escrita torta, pelas palavras vadias....um vagabundo! Se fosse formado, certamente não saberia que apenas os vagabundos vivem para o mundo...

Toda vez que vejo Chaplin, intuo viver arte. Intuo que fazer arte não é ter arcabouço teórico, erudição, técnicas mil nem nada disso...Quando vivemos questões ou quando elas nos vivem, a própria vida é arte. Errante, Chaplin caminha uma realidade onde nunca existem muros e sim somente o convite à estrada. Sorrindo...

Arte é vagabundear a vida. Sem função nem objetivos. Gastar o sapato e girar a bengala sorrindo: quando a dor te procurar. Agora posso dizer por aí que sou artista, pois ninguém poderá avaliar minha obra. NEm mesmo após a morte, pois a estrada não tem chegada alguma.

Mas, afinal, o que então somos? Arte ou artistas?

Se o mundo for feito de encantadores, o céu tem que desabar na Terra.
Se o mundo for feito de encantados, é a Terra que tem que desabar no céu.
Encantados e encantadores; arte e artistas; sorrimos caminhada nossa. De cada um.

19.2.10

O imã que tenho no peito
Teimou de desprender pedaços enferrujados de dias.
Magnético, agora só atrai girassóis.

12.2.10

O escorrega deslizou o sorriso de Tiago.Quando ele parou já era o meu.

O menino que fui me voltou.Deu a volta no tempo.Veio fazendo espiral.Agora sou Alice:Quanto maior, menor.

Passei meu passado a sujo. Borrei ele todo.Da dor não se foge, se burla.Do passado, macula-se branco só seu futuro.

Sou sem passado. Sou sem futuro. Sou sem sou.Tiaginho me é.Cecília também.Aquele antigo eu que agora corre e sorri é das crianças.

Gargalhada plena, só balbucia.Não lhe faltam as palavras, língua para medir.O menino é a alegria de descobrir que outro menino já sabe correr.Os olhos-a-mil: na terra, podemos riscar com um pauzinho o chão!Tiago não descreve; só experiencia.Não fale, Tiago: sorria!O menino é linguagem nascente de rio.

8.1.10

Sarah: O que prova sua morte?

Paulo: O triunfo da beleza e da justiça!

Final e começo de Terra em Transe

Muitos dizem que vivemos numa era Pós-Moderna, pela mudança de estruturas fixas na política, nas relações sociais, nas comunicações e formas de produzir e circular conhecimentos...A crítica a um certo niilismo talvez esteja ancorada em uma visão conceitual da realidade, onde sempre se fala de fora, sobre algo.

Acontece que agora, o muro que nos separa das coisas tem só escombros. A dificuldade então consiste em como nos movermos sem esses conceitos estruturantes: casamento não é mais pela vida necessariamente pela vida toda. E quando é...Como então amar?? Como amar dá conta da forma, do como. Mas e o amor? É questionado? Seria ele algo meramene sentimental, passível de rompantes de crise? O problema aí talvez passe por nossa inaptidão para movimentarmo-nos sem setas morais indicando caminhos. Essa é uma novidade que o século XXI traz: Aprender a lidar com questões que perderam a ferrugem moral, dogmática e conceitual, sem no entanto afundar em abismos a cada esquina. A fenda caótica abriu-se! Mas como deixar de escorregar no chão de gelo? Dançando no caos! Com música! Em concerto: A pergunta não quer resposta: quer pergunta.

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A insuficiência do par ser/não ser vivida tragicamente por Hamlet, nos abre, por exemplo, a possibilidade de experienciar a insuficiência de explicações para tudo. Mas essa não é uma questão Pós-Moderna? Não. A realidade sempre foi a mesma; mudam as tentativas de se escrever cartas em braile com certezas cegas ao tentar capturar o real com conceitos, moralidades, verdades científicas neutras...

Revi o Terra em Transe com um amigo brazileiro. O filme nos motivou a pensar o limite de aparências e explicações. O poeta Paulo Martins não quer a coerência de explicar-se politicamente. De apoiar o ditador Díaz ou o populista Vieira. Paulo, poeta, dá-se à tragédia de todo dia: o exercício vão da poesia. Sim: as explicações não dão conta do humano. Nunca deram. Acontece que se dar conta disso implica numa quebra dilacerante dos sentidos que atribuimos às nossas vidas! Caminhamos a passos trôpegos, com o peito recheado de cacos do que quebrou. Dos sentidos de nossa existência que racham: o trabalho agressivo. Os amores que morrem e matam. Os amigos apartados...

Talvez o que este século venha nos ensinar( no limiar da nova década de 10), o nosso destino, seja o aprender a caminhar num movimento, em concerto: perder pela estrada, no pó, na terra em transe, os cacos de sentidos estilhaçados- que guardados cortam o peito. Esse movimento de deixar sentidos-partidos, metal que se livra do peso de imãs, implica na construção e em ser poeticamente refeito por sentidos novos, abertos. É nisso que tanto relutamos: largar o que desabou, fere e corta, deixar de circular no mesmo eixo e nos re-integrarmos. Paradoxais, mas inteiros. Sem depender de condições ou atribuições...

O século XX expôs muito bem nossos demônios. Agora que convivemos com eles, é hora de tomarmos posse dos deuses que nos são...Ser Paulo Martins: aquele que não quer chegada e sim apenas partida!

4.1.10

O outro...é isso que não cabe em nós.
Não cabe a nós desatarmos os nós..

22.12.09

Ser ou não ser: Não eis a questão.


Hamlet, Príncipe da Dinamarca, peça de Willian Shakespeare, pode ser considerada uma obra de arte. Mas por que? Diria o Riobaldo de João Guimarães Rosa que vivendo se aprende; o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas. É sem buscar uma resposta que torne verificável o antes perguntado, que busco um caminho. Obras de arte são questões: não explicadas conceitualmente, por teorias da arte, e sim antes de tudo experienciáveis. A arte como enigma que transcende o gosto de espíritos tais como os dos cientistas que querem saber um passarinho dissecando-lhe o corpinho. A ciência pode dissecá-lo sim, mas nunca medir seu canto, pois sabiás divinam. Resta então o que sobra: tudo! Contemplar o enigma, ser o enigma.
Como questão, toda obra de arte pergunta um mesmo tema; o que é o real? Queremos escutar essa questão, trazendo-lhe à experiência, adentrando-lhe com alma, olhos e coração na famosa passagem do terceiro ato de Hamlet que a seguir cito:

Ser ou não ser...eis a questão. Será mais nobre suportar as pedradas e as flechadas de uma fortuna cruel, ou pegar em armas contra um mundo de sofrimentos e, resistindo, acabar com eles?

É buscando a escuta do humano e do real enquanto questionamento que perguntamos: Em que medida ( ou des-medida) é possível apenas ser ou apenas não ser?
Ao questionar-se, Hamlet pensa. E pensando, consuma a relação do ser com a essência do homem. O pensamento é que consuma seu Telos, sua travessia, elevando o homem à plenitude de realização. Entretanto, o pensar não produz essa relação: ele apenas oferece-a ao ser, como aquilo que a ele próprio foi confiado pelo ser. Quando a Zoé, que é a vida em geral, a vida de todos os viventes, entra na Bíos, nos traços característicos de uma vida especifica, ou seja; no homem, em Hamlet, o pensamento restitui a Bíos a sua essência; são doações do ser, na des-medida em que é no pensar que o ser se torna linguagem: se doa como realidade. É pensando o real, restituído pelo ser, que Hamlet é tomado pela questão.
Mas dentro desse ser, dessa unidade, também há o que não somos, também existem paradoxos, que são...partes de um todo. A partir dessa multiplicidade da Bíos, de como o homem consuma sua relação com o ser, gostaria de colocar a questão de Hamlet com o reposicionamento desta, feito pelo poeta mineiro Murilo Mendes.
Em sua organicidade assimétrica, Murilo Mendes, segundo Joana Matos Frias, é heterogêneo; espécie de poeta do descentramento. Em Pós-poema, presente no livro Poesia Liberdade, o poeta diz:
O anteontem- não do tempo mas de mim-
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.

Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo:
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.

Ser e não ser: eis a questão. A unidade de ser também inclui porções de não-ser. Como diria Rosa: Os paradoxos existem para que ainda se possa exprimir algo para o qual não existem palavras. Talvez também sejamos aquilo que não somos, e isso componha o todo. Como ser feliz sem assumir a tristeza como questão? Como ser próximo sem encarar a questão da solidão? Como viver a dois, se junto de nós não houver diferença? Pensando, questionando, temos o oferecimento do ser, sua doação, também pelos vazios, pelas porções do que não somos...É o poema Mapa, onde Murilo diz:
Me colaram no tempo, me puseram
Uma alma viva e um corpo desconjuntado(...)
Danço, rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado, gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
Alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem nem o mal.

Mesmo heterogêneo, mesmo sendo-e-não-sendo, Murilo Mendes também entende a obra de arte como um lugar de conciliação de contrários, talvez pela universalidade da arte em seu guardar questões. Guardar para oferecer enquanto caminho de vida.
Essa conciliação de contrários pode ser observada em alguns aforismos de seu livro O discípulo de Emaús, como por exemplo: O absoluto é primeiro motor de todas as relatividades. Ou então: Aceita os contrários, para atingires a identidade. Centro de convergências, é no homem, questionado, que são conciliados esses opostos, recriando relações construtivas, como em outro aforismo muriliano:


A vida nos oferece em seu curso as emoções mais opostas- emoções necessariamente opostas, pois de outra maneira não teríamos relações construtivas.

No ser e não ser, temos um equilíbrio pela oposição. É o equilibrista que busca firmar-se justamente na precariedade da corda bamba a plenos ares...Nosso Hamlet também equilibra-se, afirmando a certeza ou a dúvida de que em toda porção de ser, também ocultam-se porções de não-ser. É como no erro, sempre visível aos olhos afetados. Como podem estes ter ciência da porção de acertos velada pela busca incessante pelo erro? Quantos acertos, quantas coisas que são, escondem-se no erro e tornam-se porções eternas e talvez injustas de não-ser?
A dúvida de Hamlet questiona radicalmente o Ocidente que se faz cultura das certezas, da objetividade. Hamlet é a perplexidade diante das certezas. Não é uma duvida mecânica, burocrática e paralisante, mas sim revolucionária, pois ele não quer cair na funcionalidade da vingança pela vingança, porque aceitando ser e não ser como paradoxo, Hamlet mergulha nas questões, que não buscam respostas, conceitos, e sim...mais perguntas, um salto para a vida. Se não aceitasse a dúvida, se apenas fosse um lado, Hamlet seria só vingança. E, no entanto, pede perdão ao rei, deseja paz....Mas a máquina funcional leva o príncipe a matar Laertes. Não é isto um paradoxo? Hamlet queria uma terceira coisa, paradoxal, a qual não se sabe... Talvez fosse definido ali contraditório e resistente ás certezas claras. Talvez murmurasse, de tão dentro em si, coisas graves, grandes, sem som nem sentido...
Hamlet é composto de partes de um todo, de um ser que afirma a vida sendo e não sendo. Talvez a grande tragédia humana seja mesmo assumir a vida em suas contradições...


É possível que o papel do crítico seja fazer da critica um espaço de arte. Sem o simples jogo de remeter-se a cânones bibliográficos, mas sim se permitindo criar, ao ler no dito aquilo ainda não dito. Assumindo o paradoxo, Hamlet busca ser e acaba encontrando também sua porção de não-ser: são partes dialógicas da totalidade, pois não apenas se vive. Morremos. Mas nem mesmo a morte, como a vida, é um todo unitário. A morte possui porções de não ser, e o não ser da morte é a afirmação máxima de, morrendo, viver! Hamlet, morrendo, quer que Horácio conte sua estória, que afirme vida! Como disse Rosa em seu discurso de posse na ABL, prestes a tomar posse de não ser: - As pessoas não morrem. Elas ficam encantadas...
Sentidos partidos
I-
Quis saber o que dói, convidar a dor para dançar.Desprender do corpo os sentidos que minha vida tinha e agora estão todos partidos.
Transpassar a dor é ver soltar-se de si a expectativa do que não foi, o pedaço do que não ficou, a menina que o tempo desbotou...
Transeúnte nas coisas, chorei caminhada só. Chorei ao ver cair de mim os cacos do que não faz mais sentido;O tempo é de deixar o partido.E deixar o futuro sonhar o presente.

II-As cinzas em horas
Hoje atirei pela janela aquele relógio parado que havia morrido em cima da mesa.Na queda, o tempo passou.Assim também me joguei:Meu coração perdeu os ponteiros.

26.7.09

O rio dizia: - morte, morte...Disse porque coloquei-me em escuta minha, contra-ditória ao que seria fácil ouvir: - vida, vida...Temi morte desfiada no repente? As rimas do sem tempo repetindo tudo nada, eu caído para a estrofe lá debaixo do poema cósmico?Não. Pois aqui as águas correm é com mesmo sentido um; não há terra e céu: o ou caiu no ão. Não há o belo nem o feliz, porque feio e triste agora sempre descabem.Existe, fluxo desadjetivado, o é. Simplezinho que só. Que tudo;- A morte que o rio me correu era a morte da vida morta.Quando a vida rebrota em vida, coração ganha mão tocando seus profundos: braceja e empurra balança, caindo no arco-íris.Dentro e fora não tem....

11.7.09

Poeta em Transe
O poeta em transe não é:Poeta.
transe em poeta é:
caminho tão largo que não tem margens.
Realidade.
Transando terra, diz adeus a eu.
Pisando nas ruinas subjetivadas, o poeta é:
Nada;
tudo é partida sem chegada...

26.5.09

Arrebatado na fila do pãoagora vive 365 anos por dia feliz.
-x-
Uma bela poética vive sendo casulo.
Adentrar-se em escuta e explodir asas-a-foraas cores que nos tem.
-x-
Sou um imã inverso. In-verso:
Em tudo que é simples, belo e bom,magnetizo-me.
Não mais eu.E nem somente nós.
Eles...
-x-
Mestre de mais sertão,
perito nas solidões e tudo,
foi sonhado sendo outro;
citadino e desejantedos meninos quantos que lhe fazem mundo.
Acordara eu.

17.5.09

Lélio do Higino

Um todo na Physis, belo dia largou do gadame
e foi ser chôfér de caminhão.
A vaqueirama em luto, pô-se sem leite por dias...
Vaqueiro-em ser, andava e dirigia com suas mãos,
sentindo fumaça e gosto de um presente já nascido velho.
Pois rê-pois esporas e sela sua urucuiana;
Vaqueiro novo se foi mundo-a-fora:
Pegou saudade de destino..

15.5.09

De tanto costurar fez dos retalhos tecido novo.
Tecido por ter sido agora tece:
De novo....

10.5.09

Desinventado de uma estória,
larguei da coisa de ser um só.
Sou um só sem ser só eu:
Como é que se abraça o mundo?
Sendo redondo e respirando vivas cores verdes e azuis.
- x-

Já morri morte de ida-e-volta.
Agora até doença me cura.

27.4.09

Silogismo:

Diz Heráclito que ser e pensar são um só.
Para Caeiro, pensar é amar.
SE pensar e ser são um só e amar é pensar, então amar é apenas ser.
E se sou e amo ser, já não penso.
Amo.